13.11.09

Visão além do alcance

Eu vi minha professora da pré-escola. Ela estava chorando porque estava de mudança para outra cidade, e nunca mais veria suas lindas criancinhas. Eu vi também, acho que no mesmo dia, um coleguinha que achou um osso de boi em um terreno baldio e queria me convencer que era de tubarão. Eu não acreditei. Surgiu um rosto nebuloso, que eu não lembro dos detalhes. Era minha vizinha, da mesma idade e que estudava junto comigo. Eu ia para a escolinha de mãos dadas com ela. Seria meu primeiro amor? Não lembro.

Vi meu irmão dançando quadrilha quando estava na terceira série. Tinha um fotógrafo e era calor. Vi meu pai chegando em casa feliz com o primeiro chevete. Vi ele ensinando minha mãe a dirigir o Escort alguns anos depois. Senti o calor das longas e quentes viagens do Mato Grosso do Sul para o Paraná nas férias de final de ano e o choque térmico das viagens do meio do ano.

Escutei de novo minha mãe dizendo que Papai Noel não existia quando percebeu que eu vi meu pai escondendo a bola de futebol embrulhada em cima do guarda-roupas. Eu dei risada porque já sabia.

Vi a Popis, a Costelinha, o Dunga, o Dingo, a Joelma e o Bidu. Todos latiam olhando para mim. Vi um carneiro correndo para me dar uma cabeçada. Tem foto desse dia no meu orkut. Lembrei de um amiguinho fazendo xixi na piscina. Que nojo!

Lembrei do meu nome sendo dito na rádio. Lembrei do rapaz com a camisa branca do Pearl Jam indo na mesma sala que eu. O primeiro dia na Universidade! Lembro do meu primeiro dia como veterano! Ah, aquela caloura com blusinha rosa e camisa com bolinhas. Que raiva de mim mesmo! Lembrei da Luana com o cabelo ao vento na minha frente. Lembrei da Geisieli sentando ao meu lado. Lembrei da minha indiferença para a Aline que olhava bastante para mim. Lembrei da Fernanda meio bêbada.

Lembrei do rosto sério do meu chefe combinando o primeiro salário. Senti de novo o cansaço da minha primeira madrugada trabalhando de verdade. A inimaginável quantidade de telas do word que já passaram na minha frente. Do photoshop então, nem se fala!

Pude sentir de novo a emoção de ver o meu primeiro cartaz. Mal feito, mas era meu. O braço doeu de novo quando eu saí de um carro às quatro da manhã para empurrar. Estava chovendo e tinha um cara bêbado vomitando e se lamentando dentro do veículo. A motorista também estava bêbada. Tinha duas pessoas bêbadas rindo bastante. Eu estava bêbado!

Quase chorei de novo quando percebi que estava dentro de outro carro junto com meu pai e minha mãe. Estavamos abandonando meu irmão a mais de mil quilômetros de casa. Durante o mês seguinte eu ainda colocava automaticamente quatro pratos na mesa. Que silêncio fazia naquela casa. E eu podia fazer o que quisesse sem ele se intrometer. Era muito estranho.
Quem me dera poder voltar para a praia no dia em que eu mergulhei e nadei o mais longe que pude. Por incrível que pareça, o desespero da maré me levando faz falta.
Pensei que do nada eu poderia estar me apaixonando de novo. É alguém que eu vi no máximo umas três ou quatro vezes durante os muitos anos que soube da existência dela, mas que eu sentia que conhecia muito bem. Ah não, isso não! Não agora! Paixão de novo não!

Tudo isso me passou pela cabeça em menos de um segundo. Foi um flash depois de bater sem querer, mas com muita força, o dedinho do pé no canto da cama. Ai que dor!

6 comentários:

Chris disse...

Nossa quanta coisa tu lembro!! =O
MeoOOO!!!
E eu achava que tinha lembrado muita coisa quando me deparei com uma árvore brincando de rolar na grama do GEC, há mais ou menos uns 11 anos atrás!!! =p
=** primo

Michele Matos disse...

Tem dia que acordo e decido que será um dia de lembranças, esse foi um dia de lembranças na sua vida, amanhã vou acordar e decidir que só pensarei no futuro. Presente jamais.

Paulo Rocha disse...

grande maurício..
saudades daquele povo metido a besta, que nunca concordava com nada e que só sabia fazer tempestade em copo d'água.. que foram o único motivo pelo qual eu insisti mais de uma semana em um curso que eu odiei desde o início.
saudades, rapaz. dá uma passada no meu blog novo, de novo.
abraço.

Ana! disse...

Ahhhh! Uma dessas pessoas bêbadas e rindo bastante era eu! Que, diga-se de passagem..., fui quem conseguiu resolver o problema.
E lendo agora, ri de novo, mesmo estando sóbria.
=)

Fabio disse...

Paulo mentiroso!

"odiei desde o início"

quem éo cara que subiu na certeira gritando que nunca ia desistir do curso porque aquele era o curso da sua vida.

hauahauah

Paulo Rocha disse...

hahaha
eu, sei que não fui
nego até o fim