17.2.09

Mauricio cowboy

Não sei se vocês sabem, mas eu fui um peão de rodeio. Fui o campeão na modalidade permanência mirim, onde ganha quem fica mais tempo em cima do lombo do animal. Está certo que não era um cavalo propriamente dito, mas sim um pônei, pois eram crianças, e é certo que o bichinho não se mexia muito, pois eram muito mansos. Na prática, a competição consistia em ficar parado pacientemente em cima do pobrezinho o maior tempo possível, e o último a sair ganhava o troféu de algodão doce.

Me lembro bem do dia em que fui campeão. Estava competindo com umas vinte crianças de todo o norte do Mato Grosso do Sul, todos na faixa dos oito ou nove anos. Tinha um gordinho de São Gabriel do Oeste que havia ganhado o torneio anterior e era o favorito. Quando ele sentava em cima do pônei ficava parado sem mexer um músculo. Era incrível! Me recordo que até chamaram os enfermeiros só para ter certeza que ele não estava desmaiado.

E às dez da manhã soou o aviso: a competição havia começado. Naquela disputa os pais tinham um papel fundamental, pois era preciso entreter direitinho as crianças para que não emburrassem e saíssem correndo. Ou tentar emburrar elas para que não se mexessem, no caso dos hiperativos. Mas eu não precisava da ajuda dos meus pais, pois estava levando aquilo muito a sério. Meu pônei estava do lado do pônei do gordinho, e eu tentei puxar conversa:

-Você que ganhou ano passado?


-Hãã?


-Você ganhou a competição ano passado?


-Hã? Ah, sim.

-É chato ficar aqui né?


-Hããã?

-É chato ficar aqui, em cima do pônei.


-Hããã? Ah, é.

Ele disse isso, olhou para frente e ficou parado. O cara era “o cara”.

Já era meio dia e o sol estava lá no topo. Mães preocupadas enchiam seus filhotes de água e tentavam fazer sombra com o que podiam. Os infelizes pôneis sonhavam com a confortável cama de alfafa que dormiram naquela noite. O juiz do concurso era o único que mantinha um semblante firme, não podia descuidar de sua função. O representante do patrocinador do evento tentava animar o pessoal de todas as formas possíveis. Aos berros dizia para todos os pais e pessoas que assistiam que a pomada Dormentis era a única que tirava as dores lombares e ainda tinha um cheirinho de menta que deixaria seu namorado ou namorada maluquinhos. Depois o próprio admitiu que suas palavras não foram oportunas.

Lá pelas três da tarde, um homem muito simpático apareceu no local. Era um homem importante de uma renomada escola de peões de rodeio, e estava ali a procura de pequenos garotos prodígios. Ele passou de pônei em pônei perguntando aos meninos o que achavam de estar ali, competindo e tal. Ele me perguntou o que eu queria ser quando crescesse, se queria ir para Lãs Vegas ser rico e famoso. Eu disse para ele que não, que o meu futuro era na publicidade e que estava ali só pelo algodão doce.

(Abro aqui um parêntese para mostrar como nossas escolhas mudam nossa vida. Eu poderia estar em Las Vegas andando a cavalo fantasiado de Elvis e ganhando em dólar, mas não, estou aqui sofrendo.)

Quatro e meia da tarde. Me assustou a imagem de alguns urubus voando em círculos em cima de nós. Às vezes eles desciam e ficavam me encarando. De tempos em tempos um cara fantasiado de coelho cor-de-rosa dava uns tiros nas aves, mas eles sempre voltavam. Eram muitos. O grande coelho e o outro cara fantasiado de pirata faziam churrasquinho dos urubus. Eu os via matando, depenando e assando os bichos. Muitas vezes eles andavam até minha pessoa e me ofereciam aquela carne verde nojenta e um pouco de leite de búfala. Eu dizia que não, mas um homem com a pele grossa como a de um lagarto insistia. Na última vez que eu recordo deles perto de mim, eles me agarraram, ainda em cima do pônei, e tentaram me tirar lá de cima, para que eu pudesse comer a carne:

-Vamos, desça daí, coma um pouco! Desça! Vamos! Acabou! Você perdeu! Vamos, desça daí! Agora! Acabou! Desça! O gordinho saiu! Você ganhou! Vamos, desça! Algodão.

-Hã? Mas hein? O que? Pai? Mãe?

-Você estava sonhando filhinho. O concurso já acabou. Aqui está o algodão doce.

-E o gordinho?


-Saiu correndo atrás de um carrinho de cachorro-quente. Já são seis da tarde. Vamos para casa que está tarde.

E foi assim que me tornei campeão.

6 comentários:

Neto disse...

daria um belo filme
ashushuasa

Paulinha Fernandes disse...

E dá-le Maurício.
Eu não teria suportado. Nunca gostei de algodão-doce!
Hehehehe

Michele Matos disse...

Mas você também poderia ir para o Texas...lá é muito legal.

Michele Matos disse...

ps: tenho uma foto bem parecida. Mas não lembro de ter tirado.

Chris disse...

NUSSSSSSSS eu lembro da época o emilio falava, meu filho foi campeão!!! E vc dizia eu ganhei um algodão doce Chris, pito, pito, vc nao tem um algodão doce! =/ ! Por isso sempre quis ir pro Mato Grosso do Sul, ser cowgirl, mas me pai me fez desistir desta idéia, me lembrando q bailarinas engordam comendo algodão doce... desisti de ser cowgirl e fui ser bailarina e ainda não tenho um algodão doce!!

Tatiana Lazzarotto disse...

eu nunca subi em cima de um cavalo. nem de um pônei. talvez por pena do bicho, mas também... ah, as oportunidades q passam...

vc é um bom roteirista.