1.11.09

Um ocorrido breve e verdadeiro.

Antes de uma missa eu senti vontade de fazer o número um no banheiro. Ao entrar no local abri a porta do sanitário e uma mão lá dentro segurou a porta.

-Está ocupado.

Graças a Deus eu vi apenas de relance um joelho e uma calça social. É claro que eu apenas me dirigi ao outro vaso sem dizer nada, mas fui tendo a certeza de que conhecia aquela voz, aquele sotaque e aquela seriedade. Fiquei chocado pelo fato de saber que daquele momento em diante eu seria membro de um grupo muito restrito de pessoas. Agora eu sou um dos que já viram o bispo cagando. Eu tenho pesadelos.

20.10.09

Guamiranga #3

Sim! É isso mesmo! Não precisa mais perder suas noites de sono querendo saber o que aconteceu com o nosso destemido herói, pois ele voltou! Depois de uma grande aventura descendo sua espaçonave no Himalaia na primeira edição e do comovente encontro com a primeira forma de vida terrestre na Índia na segunda edição, chega o tão esperado momento! Acompanhe a incrível terceira aventura do ET Guamiranga cruzando o pacífico rumo ao novo mundo! Haja emoção!


Meu Deus! Vocês viram como ele balançou naquela onda?! Quase tive enjôos aqui! Meu coração ainda palpita a mil!

Se quiser ver de novo, de novo, de novo e muitas outras vezes a impressionante, cativante e mega surpreendente saga completa do ET Guamiranga, basta clicar no marcador "Guamiranga" logo abaixo. Não perca na próxima edição a reação do fabuloso e destemido ET Guamiranga conhecendo as belezas e os perigos da cultura chilena.

6.10.09

Madrugada

Antes de tudo eu gostaria de pedir perdão por qualquer erro gramatical ou de concordância nesse texto. Talvez isso ocorra porque estou começando a escrever exatamente a uma e vinte e oito da madrugada. Você deve concordar comigo que nesse horário o cérebro já não processa muito bem situações que exigem concentração, e depois de um dia cansativo de trabalho e um sono interrompido é possível aceitar isso sem problemas.

Pois bem, vou explicar porque estou começando a escrever agora. Tudo começou de maneira muito confusa. Eu estava andando em uma rua perto da minha casa. Lembro apenas de imagens turvas de algumas crianças brincando correndo, pega-pega eu acho, e o seu Benito, meu simpático vizinho que tocava violão na varanda da casa me dizendo algumas palavras de longe. Eram palavras confusas, sem sentido algum. Eu não lembro exatamente quais eram porque tudo escureceu. Sim, escureceu. Escureceu e surgiu, junto com o barulho específico, uma luz amarelada vindo de uma porta se abrindo. Da porta entreaberta surgiu uma silhueta feminina, uma pessoa de pouca idade com roupas jovens. Escutei uma voz melosa dizendo devagar:

-Já desligo Mauricio.

Disse isso e saiu. Não dei muita bola porque depois apareceram luzes no alto, que me chamaram a atenção. Era uma mistura de verde e azul, piscando. Contemplei aquelas luzes por um tempo, meio zonzo, sem me dar conta do que realmente acontecia. Aos poucos, tentando entender porque não via mais o seu Benito, recuperei a razão. Eu estava sonhando e minha prima, que acabara de chegar da aula, muito depois da mesma acabar, abriu a porta do meu quarto e ligou o modem para que pudesse passar mais uma madrugada na internet, no quarto dela. Obviamente ela esqueceu do nosso acordo silencioso de desligar a maioria das luzes.

Ainda um pouco tonto levantei e fui desligar os aparelhos. Como de costume, não desliguei o modem, ligado a um estabilizador, para que a amada Camila pudesse se deliciar com mais uma longa noite conectada com o mundo.

Voltei para a cama. Agora sem sono, comecei a revisar tudo o que aconteceu durante o dia. No trabalho eu estava ocupado com um projeto de calendários, muitos calendários, um para cada bairro. Os computadores da gráfica estavam ou pifados ou ocupados, então eu sugeri para o meu chefe deixar para fazer na minha casa, depois do expediente. Terminaria mais rápido. Entretanto eu teria que entregar no outro dia (na verdade hoje, porque já passou da meia noite) bem cedo para a gráfica, que não pode parar. E é por isso que eu fui dormir antes.

Tentando recuperar o sono perdido e talvez indo entender o que o seu Benito queria dizer, comecei a escutar um barulho já conhecido. TEC, TEC, TEC. Era o estabilizador acusando alguma falha na distribuição da energia. Não era a primeira vez que isso acontecia. Ocorria por causa de algo que a Camila fazia no quarto dela. Talvez um secador, prancha ou mesmo o computador. Pensei em levantar e avisar ela do barulho no meu quarto. Foi nesse momento que me aconteceu uma revelação quase divina.

Na minha cama, tentando dormir para acordar cedo no outro dia, com um barulho chato me impedindo, eu nunca havia me dado conta do óbvio. Afinal, se a Camila está na internet a noite coisa importante, de trabalho ou faculdade, com certeza não é. Se não é importante, por que eu tenho que agüentar os meus aparelhos ligados no meu quarto fazendo barulho?

Foi aí que eu me dei conta. Eu estava sendo gentil com ela. Faz pouco tempo que ela mora conosco. Veio para cá para não ter que pegar um ônibus cheio de gente que ela não gosta e viajar 160 Km todo dia para ir e voltar da faculdade. Como somos pessoas gentis, que gostamos da nossa família a os ajudamos, está morando aqui.

Eu adorei a vinda dela. Me agrada muito a idéia de ter uma irmã mais nova. Finalmente eu não sou mais o caçula da casa. Para que ela não se sentisse muito deslocada, eu estava tentando fazer com que ela não se sentisse longe de casa. Se lá em Pitanga ela viajava longe a madrugada inteira em frente à tela, aqui não podia ser diferente. Pelo menos isso até essa madrugada. O incidente da minha conversa com e seu Benito me fez abrir os olhos. Não somos nós quem devemos nos adaptar a ela, mas sim ela quem deve se adaptar a nós. Ela é a intrusa*.

Não contente em perceber o quanto estava errado em relação à minha nova maninha, estendi meu raciocínio a toda a minha vida. Percebi que é isso o que eu sou, um homem que faz tudo para que os outros se sintam a vontade, mas que não faz nada por si mesmo. Se tivesse alguém no meu quarto no momento em que eu me dei conta de tudo isso, com certeza veria uma luz iluminando minha cama. Foi um momento de revelação pessoal.

Levantei com calma, desliguei todo o meu computador sem consultar a Camila. Ela não veio reclamar, então acho que não fiz nada de mau. Aliás, mesmo se tivesse feito algo ruim não teria importância. Acabei de inventar uma regra. Daqui para frente, das 23 horas até às 7 da manhã, ou os nossos dois computadores estarão na internet ou nenhum estará. Não vou nem avisar isso para ela. Só vai ficar sabendo se ler o meu blog. Provavelmente ela não vai gostar. Provavelmente vai inventar formas de não atrapalhar meu sono. Não importa. A regra agora é sagrada e vai ser lei da casa. Perdi um ponto na minha amizade com ela, mas sou um homem mais feliz. Vou estender minha falta de boa vontade para outras partes da minha vida, principalmente no trabalho. O Mau Mau bonzinho vai ficar um pouquinho malvado de vez em quando, se acostumem.

Novamente peço perdão pelos erros gramaticais, e saiba que como é de madrugada e eu estou um pouco revoltado, pode ser que eu me arrependa de tudo o que escrevi pela manhã, por isso estou registrando aqui no Asnático. Se você notar que eu estou sendo bom demais, por favor me cobre.

*Uma intrusa super querida, que vai fazer falta quando for embora.

13.9.09

Sobre o amor II

Aah, João e Maria, casal lindo. Andavam juntos pela noite da cidade sabendo que era para caminhar de mãos dadas, mas o magnetismo fazia os dois ficarem sempre grudados. Se erravam o caminho? Quase sempre! Não por ignorância ou má fé, mas porque seus olhos não conseguiam parar de se olhar, e o caminho a se seguir era um detalhe insignificante. O frio, temível inimigo da paixão, na guerra contra o amor de João e Maria perdia miseravelmente. Não porque o calor do amor conseguia ultrapassar a barreira do abstrato, mas porque João estava disposto a ignorá-lo em prol do conforto de sua amada, que não se importou com a estética da jaqueta masculina que usava, pois o cheiro de seu amado ainda estava nela e isso era melhor que mil boticários.

Estavam voltando de um evento. Que evento? Que se dane! Era só um pretexto silenciosamente combinado entre os dois para se verem. Nenhuma palavra do homem que disse coisas lá na frente chegou a entrar em suas orelhas, que na verdade estavam desligadas. Só funcionavam o tato, impulsionado pelas fortes batidas do coração, e a visão, que ficava parada no fitar de olhares mútuos. Mesmo sem ter combinado nada, os dois sabiam que passariam bom tempo juntos no caminho de volta para casa. Sim, o lugar onde João morava ficava na outra direção, mas de que isso importa?

A cidade, escura, silenciosa, triste, estava lá, do mesmo jeito. Se alguém estava voando por cima dela provavelmente se deixou chamar a atenção por uma cor diferente do habitual negro e amarelo das luzes. Era uma neblina vermelha, feita de amor, que acompanhava os dois. Era o clima de romance no ar.

E enfim chegaria o momento da encruzilhada. Não apenas um fim de rua que dividia o caminho dos dois, mas a certeza de que passariam pelo menos um dia e meio sem se ver. Eternidade! Por que o cavalheiro não a acompanharia até o portão da casa? Pai bravo. Faz parte do encanto.

Se olharam nos olhos, se abraçaram, se olharam nos olhos de novo e se despediram sem se beijar. Sem se beijar? Sim, eram um pouco tímidos, e como estavam começando e se conheciam pouco... você entendeu né?

Ela se foi sem olhar para trás. Ele ficou encostado no muro olhando para ela. A cada passo que ela dava o coração dele palpitava mais e mais. A visão daqueles morenos fios encaracolados fez João perder a noção de tempo e espaço. Ficou tão desnorteado que não notou três homens com semblante baixo se aproximando, um de cada direção. Quando notou que eles estavam perto já era tarde e não havia caminho de escape. O mais baixo dos três disse em tom de ameaça:

-A carteira!

-Carteira?

-Agora!

-Hahahahaha. Você acha que isso tem importância?

Os três se olharam entre si e se colocaram em posição de combate, esperando a reação do João, que ainda não conseguira se desfazer do semblante de truão apaixonado.

-Vocês viram o que aconteceu antes de chegarem aqui?

-É maluco? A carteira!

-A mulher mais incrível que existe me abraçou. Meu coração palpita mais forte por ela, minhas mãos suam só com a lembrança daqueles pequenos olhos negros.

-Que merda! A carteira!

-Aqui está, metade do dinheiro para você, outra metade para você e o celular para você. – Entregou os valores como quem entregava doces às crianças carentes.

-Se me dão licença, vou para minha casa repousar, pois sei que estarei com ela em meus sonhos.

Disse isso e saiu devagar, com as mãos nos bolsos e assobiando músicas alegres para o alto. Andava tão leve que sequer se preocupara com a distância da caminhada, que era o triplo do habitual para chegar na casa. Não andou duas esquinas quando escutou novamente a voz do baixinho, que corria em sua direção acompanhado do pequeno bando.

- Volta aqui rapaz.

-Queres mais algo? Já disse que hoje nada mais importa, só a lembrança que surge através do cheiro doce que ainda está em mim.

-Tá, tá! Toma aí teu dinheiro e o telefone.

-Por que fazes isso jovem? Já os tinha em suas mãos.

-Conversamos e não achamos justo.

Sem os bens que rejeitaram, os três saíram pelas escuras ruas da cidade, em rumo impossível de se definir. João conta jurando para todos que viu uma pequena névoa vermelha saindo deles, mas com razão ninguém acredita. Se a história for verdadeira, todos sabemos que pelo menos naquela noite o amor triunfou sobre o ódio.

8.9.09

Pense nisso.




Pense nisso e tenha uma boa semana.

31.8.09

O curioso caso que ocorreu em Guarapuava no ano 1992

Como o título sugere o ano é 1992 e estamos em Guarapuava, Paraná. Jorge Brandão era um operário que estava trabalhando na construção de uma ferrovia que ligaria Guarapuava ao norte do Paraná. Numa ocasião ele e o amigo Juarez Holanda estavam cavando um barranco para dar lugar a um trecho da estrada de ferro quando bateram com a pá em uma coisa de metal. Continuaram a cavar mais e mais, mas só percebiam que o negócio era muito, muito grande. Chamaram os outros funcionários para ajudar. Depois de umas três horas cavando, encontraram uma porta. Estava escrito na porta “Governo do Brasil 1945. Entrada proibida”.

-O que será que tem aí dentro? – Perguntou Jorge Brandão.

-Não sei, vamos entrar para ver. - Respondeu Juarez.

-Sei não, quem construiu isso lacrou e enterrou no chão. Não deve ser coisa boa.

-É. Talvez alienígenas.

-Hehehe. Acho que não. Me passe o pé-de-cabra. Vou abrir esse negócio.

-Vai lá, com cuidado.

Conseguiram abrir a porta, que levava a um pequeno corredor que levava a uma escada para baixo, mais ou menos uns vinte metros. Lá embaixo era escuro, mas na própria escada tinha um interruptor, que Jorge achou sem muita complicação. Acenderam luzes incandecentes muito fracas, mas que ajudaram a achar o caminho até uma câmara de computadores. Não existiam computadores em 1945, e isso deixou os dois intrigados. Resolveram tentar ligar os aparelhos para ver o que acontecia. Apareceu apenas uma tela onde estava escrito “Pressione enter para voltar 2 minutos”. Jorge apertou o botão.

Conseguiram abrir a porta, que levava a um pequeno corredor que levava a uma escada para baixo, mais ou menos uns vinte metros. Lá embaixo era escuro, mas na própria escada tinha um interruptor, que Jorge achou sem muita complicação. Acenderam luzes incandecentes muito fracas, mas que ajudaram a achar o caminho até uma câmara de computadores. Não existiam computadores em 1945, e isso deixou os dois intrigados. Resolveram tentar ligar os aparelhos para ver o que acontecia. Apareceu apenas uma tela onde estava escrito “Pressione enter para voltar 2 minutos”. Jorge apertou o botão.

Conseguiram abrir a porta, que levava a um pequeno corredor que levava a uma escada para baixo, mais ou menos uns vinte metros. Lá embaixo era escuro, mas na própria escada tinha um interruptor, que Jorge achou sem muita complicação. Acenderam luzes incandecentes muito fracas, mas que ajudaram a achar o caminho até uma câmara de computadores. Não existiam computadores em 1945, e isso deixou os dois intrigados. Resolveram tentar ligar os aparelhos para ver o que acontecia. Apareceu apenas uma tela onde estava escrito “Pressione enter para voltar 2 minutos”. Jorge apertou o botão.

Conseguiram abrir a porta, que levava a um pequeno corredor que levava a uma escada para baixo, mais ou menos uns vinte metros. Lá embaixo era escuro, mas na própria escada tinha um interruptor, que Jorge achou sem muita complicação. Acenderam luzes incandecentes muito fracas, mas que ajudaram a achar o caminho até uma câmara de computadores. Não existiam computadores em 1945, e isso deixou os dois intrigados. Resolveram tentar ligar os aparelhos para ver o que acontecia. Apareceu apenas uma tela onde estava escrito “Pressione enter para voltar 2 minutos”. Jorge apertou o botão e um monte de faíscas começaram a surgir de todos os lados. Os computadores pegaram fogo. Ainda bem que os dois levaram um pequeno extintor.

-Quer saber, esse monte de ferro velho não serve para nada. Vamos demolir tudo isso e continuar trabalhando antes que o engenheiro chegue e dê uma bronca.

-Falou, vou chamar o pessoal da demolição.

Buum.

30.6.09

Toczeks que fizeram história - parte V

Hernandez Toczek era, e ainda é, um descendente de poloneses que estabeleceram residência, muitos anos atrás, em uma pequena cidade no interior do México. Como todo bom jovem mexicano, sentiu que era preciso conseguir uma vida melhor nos Estados Unidos. Passou a fronteira de forma legal, dentro do porta-malas de um carro. (Não faça essa cara! É legal andar no porta-malas sim senhor(a)!)

Em Los Angeles, sem cartão de imigração ou qualquer tipo de apoio das autoridades daquele país, o único trabalho que conseguiu foi o de jardineiro em uma enorme mansão. Não conheceu seu patrão de imediato. Os seus contratantes argumentavam que isso era porque ele era uma pessoa muito importante, por isso era necessária certa discrição e alguns segredos.

O jardim era lindo! A grama era tão verde e bonita que parecia que dava para fazer salada. Rumores entre os funcionários diziam que uma vez um homem que cuidava da piscina comeu aquela grama no almoço, e tinha gosto de rúcula!

Hernandez estava impressionado com o tamanho da casa. Quando pequeno, nem mesmo sua imaginação conseguia conceber algo tão grandioso. Curioso e sem noção de perigo, resolveu que daria um jeito de conhecer a casa por dentro, queria saber como era ser um magnata. Naquele momento havia um caminhão descarregando muitas plantas exóticas que supostamente enfeitariam os aposentos do milionário. Muito esperto, Hernandez pegou um monte de folhas podadas no jardim e cobriu seu corpo, de forma que quando agachado qualquer um pensaria que era uma legítima Calvincera dos Alpes, planta rara.

Seu movimento furtivo foi perfeito, e em poucos instantes os carregadores o levaram escadas acima e já estava dentro do quarto do tal ricaço. Meu Deus! Aquilo era maior do que a casa onde ele viveu a maior parte de sua vida. A cama devia ser do tamanho da varanda da casa dele, e o banheiro era de um conforto que ele nunca soubera que existia.

Aqueles foram os melhores momentos da vida dele. Nadou na banheira, assistiu dois filmes na enorme tela de plasma enquanto comia todos os tipos de guloseimas européias possíveis, que estavam no frigobar. Pulou na cama, experimentou roupas e jogou muito vídeo-game. Se divertiu tanto que nem viu o tempo passar.

Estava ele deitado na cama, olhando a pintura de dois anjinhos no teto, quando escutou alguém mexendo na fechadura da porta. Era o chefe!

Mais que depressa pulou da cama, jogou o pijama no chão e completamente nu tentou vestir sua roupa de Calvincera dos Alpes antes que o chefe entrasse. Não conseguiu. O homem alto, branco, com terno caro estilo anos oitenta se deparou com meu parente seminu, tentando se esconder atrás das folhagens.

-Er... seu... é.... eu posso explicar.. não é nada....

-Oh my God.. you.. you..

-Calma, calma, já estou de saída, não chame a polícia por favor.

-You.. oh... you.. no!

-Ei, tudo bem?

-You.. I... you.. oh!

O homem deitou no chão segurando o peito, parecia que não estava bem. Hernandez, com a culpa nos ombros, correu para a ajudar o estranho senhor, mas quando chegou perto ele se assustou ainda mais e gritou desesperadamente por socorro. Agora a culpa dava lugar à covardia. O polaco mexicano se vestiu de planta exótica de novo e pulou pela janela de cabeça na piscina, que era logo abaixo. Se secou e continuou trabalhando como se nada tivesse acontecido. Quanto ao milionário, os atentos leitores do Asnático já devem ter imaginado o que aconteceu. Caso você não tenha compreendido, clique aqui.

Abraços.

16.5.09

O conto do lobisomem

Quinta-feira, dia 12, 11:45 da noite. Eu estava caminhando contra o cortante vento guarapuavano rumo ao meu refúgio. Saí da Lagoa das Lágrimas e fui em direção ao centro da cidade. No céu apenas algumas nuvens cobriam o negro véu da noite.

Na rua os viciados com esparadrapos podres brigavam pela última seringa. Um mendigo e seu cachorro sarnento esquentavam um ao outro embaixo dos jornais. Os corvos não se incomodaram com a presença humana e andaram pela rua com seu gingado peculiar, às vezes próximos das prostitutas que pitavam seus cigarros verdes enquanto nenhum mercedes parava.

Caminhei devagar, mas cauteloso. A única coisa que eu tinha a perder naquela noite era a minha vida, que eu gosto muito. Cruzei a região urbana perigosa, e o único caminho que faltava era o velho parque do lago. O vulto do balancear das garras das árvores às vezes pareciam querer me arranhar, e o voo dos pássaros insones esporadicamente me davam um susto.

Saí da área arborizada e agora estava caminhando pelo calçamento que margeia a água. Olhei para o céu e percebi que as nuvens estavam fugindo para dar lugar à bela e radiante lua, em um ballet mágico de perfeita sincronia com os sinos da igreja Santa Cruz, que acusavam a chegada da sexta-feira 13, e o estrondoso uivo de uma então inimaginável criatura:

-Aaauuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Eu conhecia as lendas, sabia que precisava apressar meus passos.

Continuei sem olhar para trás. Não queria que o ser percebesse minha presença. Ao longe eu escutava a respiração ofegante do lobisomem, que estava cavando buracos e afiando as garras nas árvores. De dia todos viam as marcas nos troncos, mas se recusavam a acreditar. Eu não era assim, sabia que era real.

Em cima da ponte, escutei passos com som cada vez mais altos vindo em minha direção. Corri!

Consegui sair da ponte, agora só faltavam alguns metros em um caminho com poucas árvores para sair do parque. Ainda correndo, olhei para trás e vi aquela enorme criatura peluda. Devia ter uns dois metros de altura quando de pé, mas não estava nessa posição. Estava correndo com as quatro patas, e não precisou de dez passos para cruzar a ponte que eu demorei uns três minutos para passar. Foi inevitável, não adiantava eu correr. Ele chegou perto e ficou cara a cara comigo.

Estava rangendo os dentes e me olhando com olhar de assassinato. Eu fui dando alguns passos curtos para trás, atitude que acusou o meu temor. Ele avançava sobre mim na mesma velocidade, pata por pata. Eu só desviava os meus olhos dos olhos dele quando notava suas presas, com caninos maiores que uma tampa de caneta.

Aquele tenso momento de passos curtos aumentou quando esbarrei em uma árvore. Não tinha mais para onde ir, ao contrário da besta, que continuava avançando. Em um momento de desespero notei que na árvore em que eu estava encostado tinha um grande e grosso galho solto. Escorreguei a minha mão até ele e arranquei. A fera ainda estava me encarando. Segurei aquele pedaço de pau com firmeza, não tinha outra opção. Fechei os olhos e com toda a força arremessei o mais longe possível. O lobisomem correu atrás do galho, pegou ele com a boca e trouxe de volta para mim, com o rabo abanando. Joguei de novo e ele trouxe de novo.

Fiz algum carinho nele e levei para casa para passar um talco anti-pulgas. Hoje eu pago ele para cuidar da nossa casa toda noite e de dia ele está cuidando da declaração de imposto de renda do meu pai. Só um bico, é claro. Ele ainda vai montar uma empresa de contabilidade.

25.4.09

Sozinho vencerei!

Se passaram mais de dois meses desde o dia da formatura, e eu ainda não abri o presente que ganhei da paraninfa, que veio junto com o diploma. Não faço idéia do que tem dentro da bonita caixinha prateada. É sério!



Peço aos colegas que sabem o que é para NÃO estragarem a minha surpresa. Estou tentando descobrir por quanto tempo eu vou conseguir vencer a terrível batalha contra a curiosidade, e olha que não está sendo fácil.

Para tornar isso mais interessante, eu vou sortear um Jotalhão de pelúcia pequeno para os leitores do blog no dia 20 de dezembro de 2009, APENAS se eu aguentar até lá.

Caso eu não consiga resistir e acabe abrindo antes da hora, prometo gravar um vídeo revelando como foi o momento e postar aqui.

Então, sem spoilers, beleza? Não quero nem pistas que possam revelar o conteúdo da caixa. Deixem essa briga comigo, tenho fé que conseguirei vencer.

PS: Tomara que não seja nada perecível.

27.2.09

A formatura

Pois é, me formei. Me lembro como se fosse ontem os longos momentos antes de pegar o canudo. A turma toda estava reunida, em um misto de nervosismo e alegria. As roupas com certeza não combinavam com o clima naquela época do ano. Gostaria de saber quem foi o espertalhão que inventou que a gente tem que se formar com tanto pano. Fiquei imaginando que quando me chamassem apenas uma pequena poça d’água receberia o papel.

Se formar tem suas vantagens. Alguns dizem que a maior de todas é o fato de o diploma ser um comprovante de que somos pessoas esforçadas, inteligentes e capazes de exercer o cargo pretendido. Outros dizem que o importante não é o diploma, mas sim o que aprendemos enquanto tentamos conquista-lo. Tudo balela. A maior vantagem do diploma é a cela especial na cadeia, mas esse assunto não tem nada a ver com esse texto.

Bem, estava eu lá, naquele calor dos cornos, depois de uma interminável sessão de fotos que só os pais vão achar bonitinhas, esperando um monte de gente falar para que eu pudesse pegar o meu diploma e sair dali, pois estava passando a reprise dos cavaleiros do zodíaco na TV e eu não podia perder aquilo por nada. Meu Deus, como as pessoas falam em formaturas. Aquilo parecia uma palestra sobre a sistematização dos meios contábeis a fim de viabilizar maior arquivamento de processos burocráticos. Não passava nunca!

Num momento eu peguei no sono. Dormi mesmo! Só acordei quando o outro formando que estava do meu lado me deu um cutucão, avisando que eu tinha que ir lá receber o papel. É claro que depois veio a comemoração dos recém formados.

No momento da comemoração, aconteceu a única coisa que me agradou de verdade naquele evento: a menina por quem eu nutria um forte amor platônico, que era da minha turma, veio até minha pessoa e me deu os parabéns pela conquista. Foi inesquecível. Como foi bom sentir o cheiro dela ali pertinho. Foi um segundo que ficou guardado com a mesma intensidade de dez anos. A imagem daquele sorriso moreno e do balancear daquele cabelo encaracolado ilumina minha alma até hoje e vai continuar iluminando para sempre, apenas em minha memória, infelizmente.

Depois daquele abraço, fui embora com o diploma na mão e com a certeza do que faria da minha vida no dia seguinte, um projeto essencial para o meu futuro: a matrícula na primeira série do primário!

E assim eu terminei a pré-escola. Muitos anos depois eu também me formei na universidade, e essa formatura foi muito mais legal.