O homem que sabia de tudo
Graciano sabia tudo. Tudo sobre computadores? Não. Tudo sobre astronáutica? Não. Tudo sobre as celebridades? Não. Graciano sabia tudo sobre tudo. Não havia nenhuma pergunta feita a ele da qual não soubesse a resposta. Nasceu assim e sempre foi assim, como se tivessem inserido toda a informação do mundo no seu cérebro enquanto ainda estava no útero de sua mãe. Era um homem muito bom, e por isso sua sua existência era uma verdadeira benção para a humanidade. Que o digam seus professores do primário que aprenderam mais da metade do que sabem com ele.
Não é preciso dizer aqui o quão grande foi seu sucesso na carreira jornalística. A concorrência simplesmente não podia com um jornal que dava as infomações no exato instante em que o fato acontecia. Por que não antes? Ora, Graciano sabia tudo sobre tudo, mas não era vidente. O futuro continuava sendo uma escura e fria incógnita.
Só desistiu da carreira jornalística porque encontrou sua razão de existir na profissão que usava seu dom para algo realmente útil para a humanidade. Graciano se tornou detetive. Agora nenhum assassinato ficava impune na cidade.
No que seria mais um dia comum, Graciano acordou, deu um beijo de bom dia em sua linda e amável esposa Ana Flores. Normalmente só escovava os dentes depois do café da manhã, mas desta vez o fez ante porque sabia que os ratos invadiram a casa no dia anterior e estavam escondidos no forro, dando uma escapada a noite para fazer um ninho na sacola de pães. Como já sabia da existência dos inconvenientes visitantes, no dia anterior chamou o exterminador de pragas que sua esposa sugeriu, e antes dele tocar a campainha já sabia que ele havia chegado. Deu as intruções para o sujeito moreno e foi trabalhar.
Quando chegou na delegacia, de imediato percebeu que uma das testemunhas prestanto depoimento era na verdade o assassino. Era tão obvio. Prenderam o meliante.
Chamou seu parceiro João da Cunha para sair com ele até uma farmácia onde estava acontecendo um assalto.
- Meu Deus! Vamos levar reforço então! – Disse João.
- Não precisa, eles já estão saindo. Quando chegarmos lá já estarão no galpão da XV de Novembro, saída para a Rodovia. Mandamos alguém para prender eles lá e tranquilizamos o dono da farmácia para que ele reconheça os assaltantes daqui a uma hora na delegacia. Tranquilo, tranquilo. Os novatos na delegacia achavam um absurdo um oficial agir daquela maneira, mas os veteranos já conheciam Graciano e aplaudiam as palavras do eficiente, gentil e esperto companheiro de trabalho.
E assim se seguiu o dia de Graciano. Resolveu uns 10 casos antigos, de antes dele se tornar um detetive, garantiu a prisão de 5 marginais e conseguiu consertar o bebedouro da corporação.
Ao final do dia não estava cansado. Sabia bem o que fazer para evitar a fadiga sem perder produtividade. Chegou em casa e foi direto para o quarto porque sabia que Ana Flores estava lá deitada esperando por ele. Ao abrir a porta do cômodo, deu de cara com o grande morenão exterminador de pragas só com as roupas de baixo.
- Hã? Er.. seu Graciano. Já acabei com os ratos no banheiro da sua suíte. Tirei as roupas porque não queria que ficasse o cheiro do veneno.
- Tudo bem raparigão. Pode ir para casa.
Ainda na cama, também apenas com as roupas de baixo, Ana Flores estava um pouco nervosa.
- Gracinhoo.. você... sabe..o que aconteceu aqui?
- Ora querida, eu sei tudo. Assim que eu sou.
- Então... como fica?
- Amanhã ligarei para a empresa de dedetização e reclamarei desse funcionário. Ficou aqui o dia todo e eu ainda posso escutar os ratos andando no forro. Isso não está certo.
- Hã? Claro, claro, por isso estou nervosa.
- Vou tomar banho querida, descanse bastante que o nervosismo passa.
E assim terminou mais um dia de Graciano, o homem que sabia de tudo.





