22.1.11

O homem que sabia de tudo

Graciano sabia tudo. Tudo sobre computadores? Não. Tudo sobre astronáutica? Não. Tudo sobre as celebridades? Não. Graciano sabia tudo sobre tudo. Não havia nenhuma pergunta feita a ele da qual não soubesse a resposta. Nasceu assim e sempre foi assim, como se tivessem inserido toda a informação do mundo no seu cérebro enquanto ainda estava no útero de sua mãe. Era um homem muito bom, e por isso sua sua existência era uma verdadeira benção para a humanidade. Que o digam seus professores do primário que aprenderam mais da metade do que sabem com ele.

Não é preciso dizer aqui o quão grande foi seu sucesso na carreira jornalística. A concorrência simplesmente não podia com um jornal que dava as infomações no exato instante em que o fato acontecia. Por que não antes? Ora, Graciano sabia tudo sobre tudo, mas não era vidente. O futuro continuava sendo uma escura e fria incógnita.

Só desistiu da carreira jornalística porque encontrou sua razão de existir na profissão que usava seu dom para algo realmente útil para a humanidade. Graciano se tornou detetive. Agora nenhum assassinato ficava impune na cidade.

No que seria mais um dia comum, Graciano acordou, deu um beijo de bom dia em sua linda e amável esposa Ana Flores. Normalmente só escovava os dentes depois do café da manhã, mas desta vez o fez ante porque sabia que os ratos invadiram a casa no dia anterior e estavam escondidos no forro, dando uma escapada a noite para fazer um ninho na sacola de pães. Como já sabia da existência dos inconvenientes visitantes, no dia anterior chamou o exterminador de pragas que sua esposa sugeriu, e antes dele tocar a campainha já sabia que ele havia chegado. Deu as intruções para o sujeito moreno e foi trabalhar.

Quando chegou na delegacia, de imediato percebeu que uma das testemunhas prestanto depoimento era na verdade o assassino. Era tão obvio. Prenderam o meliante.

Chamou seu parceiro João da Cunha para sair com ele até uma farmácia onde estava acontecendo um assalto.

- Meu Deus! Vamos levar reforço então! – Disse João.

- Não precisa, eles já estão saindo. Quando chegarmos lá já estarão no galpão da XV de Novembro, saída para a Rodovia. Mandamos alguém para prender eles lá e tranquilizamos o dono da farmácia para que ele reconheça os assaltantes daqui a uma hora na delegacia. Tranquilo, tranquilo. Os novatos na delegacia achavam um absurdo um oficial agir daquela maneira, mas os veteranos já conheciam Graciano e aplaudiam as palavras do eficiente, gentil e esperto companheiro de trabalho.

E assim se seguiu o dia de Graciano. Resolveu uns 10 casos antigos, de antes dele se tornar um detetive, garantiu a prisão de 5 marginais e conseguiu consertar o bebedouro da corporação.

Ao final do dia não estava cansado. Sabia bem o que fazer para evitar a fadiga sem perder produtividade. Chegou em casa e foi direto para o quarto porque sabia que Ana Flores estava lá deitada esperando por ele. Ao abrir a porta do cômodo, deu de cara com o grande morenão exterminador de pragas só com as roupas de baixo.

- Hã? Er.. seu Graciano. Já acabei com os ratos no banheiro da sua suíte. Tirei as roupas porque não queria que ficasse o cheiro do veneno.

- Tudo bem raparigão. Pode ir para casa.

Ainda na cama, também apenas com as roupas de baixo, Ana Flores estava um pouco nervosa.

- Gracinhoo.. você... sabe..o que aconteceu aqui?

- Ora querida, eu sei tudo. Assim que eu sou.

- Então... como fica?

- Amanhã ligarei para a empresa de dedetização e reclamarei desse funcionário. Ficou aqui o dia todo e eu ainda posso escutar os ratos andando no forro. Isso não está certo.

- Hã? Claro, claro, por isso estou nervosa.

- Vou tomar banho querida, descanse bastante que o nervosismo passa.

E assim terminou mais um dia de Graciano, o homem que sabia de tudo.

31.7.10

Claudiano Bastos

Claudiano Bastos, bandido sem vergonha! Filho de um agiota com uma prostituta, sua escola foi a rua. Nunca teve dinheiro, nunca trabalhou, nunca foi em uma igreja, nunca ficou com uma mulher por mais de uma noite. Suas amizades eram apenas de gente boa, com tatuagem de Carandirú e sonhando com Catanduvas. Objetivos na vida? Conseguir a graminha enrolada de amanhã.

Apesar de conviver com todo tipo de gente ruim, em 17 anos não aprendeu quase nada de criminalidade avançada. Vivia como um simples assaltante de rua, abordando apenas pessoas mais fracas e estrangeiras. Já apanhou tanto que nem sente mais dor.

Meio dia, o sol estava forte lá em cima e as ruas desertas aqui em baixo. Quem não estava olhando para um prato de comida estava olhando para o jornal na TV. Olhando a rua, ninguém. O cenário perfeito para Claudiano Bastos entrar em ação.

Um rapazinho baixo, cabelo loiro encaracolado, vestindo Adidas, Nike e Mizuno caminha sozinho pela rua. "Vai me sustentar uma semana", pensa o assaltante.

Munido de seu velho estilete, não encontra muitos problemas para chegar furtivamente na vítima e abordá-la.

- A carteira, rápido!

- Ah.. uh hii ohh - Diz o coitado, meio engasgado.

- A carteira! E tire o tênis!

- A.. uh.. iii.. ga.

- Tá engasgado marica? A carteira, o tênis e a camiseta. AGORA!


O pobre rapaz faz um gesto apontando a própria orelha seguido de um sinal de não, atitude que qualquer um entende como "não escuto".

- Tu é surdo?! PASSA LOGO PRA CÁ!

O rapaz fez a conhecida linguagem dos sinais, dando a Claudiano a certeza de que era surdo. Não adiantando nada gritar, o bandido tentou fazer gestos para convencer o pobre coitado a entragar os pertences, mas em vão. A vítima não conseguia entender nada do que Claudemir "dizia".

Sem sucesso na comunicação, o assaltante simplesmente foi embora. Nos segundos que seguiram a ação repensou sua vida, todas as chances que desperdiçou, todas as brigas em que se meteu, todas as coisas erradas que já fez e como ainda estava inteiro. Escutava bem, via bem, falava bem. Tinha tudo o que precisava. Sim, era a hora de mudar o rumo de sua vida. Olhou para trás mais uma vez para guardar na lembrança o rosto do homem que o fez pensar um pouco melhor. Lá longe a quase vítima também andava olhando para trás e também parou para fixar os olhos nos de Claudemir.

Ficaram lá parados olhando um para o outro por alguns instantes, como se estivessem esperando alguma comunicação. O rapaz loiro de cabelos encaracolados puxou a respiração o mais forte possível, colocando em seu peito todo o ar que pode e gritou para a cidade inteira escutar:

- LADRÃO BURRO!

Embora tenha quase perdido as pernas na corrida, Claudemir não conseguiu alcançar o espertalhão.

11.2.10

O raconto dental mauriciano.

Me lembro dos meus tenros 12 anos de idade. Morava no estado do Mato Grosso do Sul, quase na fronteira com Goiás. Em um daqueles calorosos dias, acordei com algo diferente dentro da boca. Não era algo que se via ou se cheirava, mas com certeza era uma coisa que doía! E como doía! Malditas balinhas de côco.

Minha mãe me levou naquela senhora magra, vestida de branco e com olhar diabólico. Usando um daqueles aparelhinhos do mal que fazem ziiiiiiiiiii ela extraiu não apenas a pequena, porém grande em dor, cárie, mas parte daquele dentinho lindo. Completou o espaço vago com argamassa e me mandou embora.

Minutos depois eu me exibi para um amiguinho desafiando ele a me beliscar na bochecha com toda a força, pois macho como eu era não gritaria de dor. Anestesia, fazendo dos meninos homens desde 1998. Passada a dor do dentista e a dor do machucado dos beliscões (a anestesia acaba né), me pensei livre de qualquer preocupação com o dito dente rebelde e da dentista diabólica. Triste engano.

Perto dos dias atuais, eu vinha sentido há algum tempo uma sensibilidade um pouco maior no dente obturado pela carrasca naquele dia. Não dei muita bola, pois não era insuportável, ainda mais agora que eu sou muito mais macho que antes. Em uma manhã de sábado muito quente, e parecida com aquela do Mato Grosso do Sul, eu senti novamente aquela dor. Ai que coisa horrível! Era um misto de dor e raiva, pois como pode um dente obturado doer? Foi então que minha língua me revelou a verdade, a obturação não estava mais lá! Sim, não contente com a dor que me causou naquele dia, a doutora do mal fez questão de deixar um furinho microscópico que foi aumentando cada vez mais durante os longos anos que separaram as duas dores. Esperta e maléfica.

Fui para o dentista e esse só confirmou o que eu já sabia. Uma infiltração fez a obturação cair e tudo o que existia ente ela e o dente estava cariado. Pensei que agora estava tudo certo, era só tirar a cárie e fechar de novo, mas aí ele disse as palavras que me gelaram a espinha: “Vai ter que fazer tratamento de canal.”

Enquanto ele vomitava tais palavras, o além me iluminou com duas grandes verdades: 1 – Odontologia é o nome de uma seita do mal destinada a espalhar a dor. 2 – Ninguém pode se livrar de tal seita.

Confirmei que faria tal tratamento porque, como já disse antes, sou muito macho.

Pense numa agulha grande. A agulha que ele usou na anestesia era dez vezes maior. Aplicou no osso. Em seguida enfiou outras três agulhas, cada uma do tamanho de um prego, dentro do dente. Colocou uma em cada nervinho a fim de mapear os mesmos no raio-x. Quando vi o tamanho das agulhas eu quase desmaiei. Só não o fiz porque, como já disse muitas vezes, sou um machão destemido.

-Muito bem Mauricio, já mapeamos o tamanho dos canais. Na próxima consulta vamos colocar um remédio a fim de eliminar eles. Em uma terceira consulta vamos fechar os canais. Nesse meio tempo você vai usar um curativo no dente para protegê-lo. Tudo certo?

-S.. S.. Sim.

-A propósito, o tratamento vai custar R$350,00.


Tombei.

20.12.09

Resultado

Acabou! Foi realizado o grande sorteio do Asnático! No dia 20 de dezembro de 2009, às 18 horas e 46 minutos, tinham 148 comentários no post do concurso. O número aleatório gerado pelo random.org foi o “9”, que corresponde ao seguinte comentário:

Parabéns Michele Matos. Você foi a grande vencedora! O Jotalhão é seu!

Agora notem o comentário número 10, abaixo do vencedor:

No dia que li isso achei bobagem. Imaginei que ela escreveu aquilo apenas para aumentar as chances, mas não! Lembro que logo depois que eu lancei o concurso, e tinha uns 40 ou 50 comentários, eu fiz um teste só para ter certeza que nada ocorreria errado. A Michele ganhou naquela ocasião também, não lembro se foi com esse mesmo número. Eu tenho certeza que não manipulei o resultado de maneira alguma, apenas coloquei os números e cliquei uma única vez no botãozinho lá do site. Não sei quanto a vocês, mas isso me cheira a macumba. Ela tem descendência* paraguaia. Pensem nisso.

* É ascendência. Valeu Gustavo!

11.12.09

O grande sorteio!

Olá amigos. Quem diria, no começo do ano que termina ninguém poderia imaginar que um dia dezembro chegaria. Pois chegou e, conforme prometido, vou sortear um pequeno Jotalhão de pelúcia para vocês no dia 20. Não, até hoje não sei o que tem na caixinha que eu ganhei na formatura. Ela está fechadinha. E para ser sincero acho que vou deixar ela mais um tempão assim. Se eu fosse um personagem de Heroes, meu poder seria o super controle da própria curiosidade.

Pesquisando na internet, descobri que uma boa maneira de sortear coisas pelos blogs é usar o site random.org, que gera um número aleatório dentro de uma seqüência pré definida. Então minha proposta é a seguinte: o primeiro comentário desse post é o número um, o segundo o número dois, o terceiro o número três, e assim por diante. Para sortear vou gerar o número aleatório naquele site e tirar o print screen da tela.

-Mas tio Maurício, não fica muito fácil para você manipular o resultado?

Sim, fica bem fácil, mas não pretendo fazer isso. Não se preocupem. :)

O envio do prêmio eu vou decidir junto com o vencedor(a) qual é a melhor forma.

Então nos vemos no dia 20 e boa sorte!

13.11.09

Visão além do alcance

Eu vi minha professora da pré-escola. Ela estava chorando porque estava de mudança para outra cidade, e nunca mais veria suas lindas criancinhas. Eu vi também, acho que no mesmo dia, um coleguinha que achou um osso de boi em um terreno baldio e queria me convencer que era de tubarão. Eu não acreditei. Surgiu um rosto nebuloso, que eu não lembro dos detalhes. Era minha vizinha, da mesma idade e que estudava junto comigo. Eu ia para a escolinha de mãos dadas com ela. Seria meu primeiro amor? Não lembro.

Vi meu irmão dançando quadrilha quando estava na terceira série. Tinha um fotógrafo e era calor. Vi meu pai chegando em casa feliz com o primeiro chevete. Vi ele ensinando minha mãe a dirigir o Escort alguns anos depois. Senti o calor das longas e quentes viagens do Mato Grosso do Sul para o Paraná nas férias de final de ano e o choque térmico das viagens do meio do ano.

Escutei de novo minha mãe dizendo que Papai Noel não existia quando percebeu que eu vi meu pai escondendo a bola de futebol embrulhada em cima do guarda-roupas. Eu dei risada porque já sabia.

Vi a Popis, a Costelinha, o Dunga, o Dingo, a Joelma e o Bidu. Todos latiam olhando para mim. Vi um carneiro correndo para me dar uma cabeçada. Tem foto desse dia no meu orkut. Lembrei de um amiguinho fazendo xixi na piscina. Que nojo!

Lembrei do meu nome sendo dito na rádio. Lembrei do rapaz com a camisa branca do Pearl Jam indo na mesma sala que eu. O primeiro dia na Universidade! Lembro do meu primeiro dia como veterano! Ah, aquela caloura com blusinha rosa e camisa com bolinhas. Que raiva de mim mesmo! Lembrei da Luana com o cabelo ao vento na minha frente. Lembrei da Geisieli sentando ao meu lado. Lembrei da minha indiferença para a Aline que olhava bastante para mim. Lembrei da Fernanda meio bêbada.

Lembrei do rosto sério do meu chefe combinando o primeiro salário. Senti de novo o cansaço da minha primeira madrugada trabalhando de verdade. A inimaginável quantidade de telas do word que já passaram na minha frente. Do photoshop então, nem se fala!

Pude sentir de novo a emoção de ver o meu primeiro cartaz. Mal feito, mas era meu. O braço doeu de novo quando eu saí de um carro às quatro da manhã para empurrar. Estava chovendo e tinha um cara bêbado vomitando e se lamentando dentro do veículo. A motorista também estava bêbada. Tinha duas pessoas bêbadas rindo bastante. Eu estava bêbado!

Quase chorei de novo quando percebi que estava dentro de outro carro junto com meu pai e minha mãe. Estavamos abandonando meu irmão a mais de mil quilômetros de casa. Durante o mês seguinte eu ainda colocava automaticamente quatro pratos na mesa. Que silêncio fazia naquela casa. E eu podia fazer o que quisesse sem ele se intrometer. Era muito estranho.
Quem me dera poder voltar para a praia no dia em que eu mergulhei e nadei o mais longe que pude. Por incrível que pareça, o desespero da maré me levando faz falta.
Pensei que do nada eu poderia estar me apaixonando de novo. É alguém que eu vi no máximo umas três ou quatro vezes durante os muitos anos que soube da existência dela, mas que eu sentia que conhecia muito bem. Ah não, isso não! Não agora! Paixão de novo não!

Tudo isso me passou pela cabeça em menos de um segundo. Foi um flash depois de bater sem querer, mas com muita força, o dedinho do pé no canto da cama. Ai que dor!

1.11.09

Um ocorrido breve e verdadeiro.

Antes de uma missa eu senti vontade de fazer o número um no banheiro. Ao entrar no local abri a porta do sanitário e uma mão lá dentro segurou a porta.

-Está ocupado.

Graças a Deus eu vi apenas de relance um joelho e uma calça social. É claro que eu apenas me dirigi ao outro vaso sem dizer nada, mas fui tendo a certeza de que conhecia aquela voz, aquele sotaque e aquela seriedade. Fiquei chocado pelo fato de saber que daquele momento em diante eu seria membro de um grupo muito restrito de pessoas. Agora eu sou um dos que já viram o bispo cagando. Eu tenho pesadelos.

20.10.09

Guamiranga #3

Sim! É isso mesmo! Não precisa mais perder suas noites de sono querendo saber o que aconteceu com o nosso destemido herói, pois ele voltou! Depois de uma grande aventura descendo sua espaçonave no Himalaia na primeira edição e do comovente encontro com a primeira forma de vida terrestre na Índia na segunda edição, chega o tão esperado momento! Acompanhe a incrível terceira aventura do ET Guamiranga cruzando o pacífico rumo ao novo mundo! Haja emoção!


Meu Deus! Vocês viram como ele balançou naquela onda?! Quase tive enjôos aqui! Meu coração ainda palpita a mil!

Se quiser ver de novo, de novo, de novo e muitas outras vezes a impressionante, cativante e mega surpreendente saga completa do ET Guamiranga, basta clicar no marcador "Guamiranga" logo abaixo. Não perca na próxima edição a reação do fabuloso e destemido ET Guamiranga conhecendo as belezas e os perigos da cultura chilena.

13.9.09

Sobre o amor II

Aah, João e Maria, casal lindo. Andavam juntos pela noite da cidade sabendo que era para caminhar de mãos dadas, mas o magnetismo fazia os dois ficarem sempre grudados. Se erravam o caminho? Quase sempre! Não por ignorância ou má fé, mas porque seus olhos não conseguiam parar de se olhar, e o caminho a se seguir era um detalhe insignificante. O frio, temível inimigo da paixão, na guerra contra o amor de João e Maria perdia miseravelmente. Não porque o calor do amor conseguia ultrapassar a barreira do abstrato, mas porque João estava disposto a ignorá-lo em prol do conforto de sua amada, que não se importou com a estética da jaqueta masculina que usava, pois o cheiro de seu amado ainda estava nela e isso era melhor que mil boticários.

Estavam voltando de um evento. Que evento? Que se dane! Era só um pretexto silenciosamente combinado entre os dois para se verem. Nenhuma palavra do homem que disse coisas lá na frente chegou a entrar em suas orelhas, que na verdade estavam desligadas. Só funcionavam o tato, impulsionado pelas fortes batidas do coração, e a visão, que ficava parada no fitar de olhares mútuos. Mesmo sem ter combinado nada, os dois sabiam que passariam bom tempo juntos no caminho de volta para casa. Sim, o lugar onde João morava ficava na outra direção, mas de que isso importa?

A cidade, escura, silenciosa, triste, estava lá, do mesmo jeito. Se alguém estava voando por cima dela provavelmente se deixou chamar a atenção por uma cor diferente do habitual negro e amarelo das luzes. Era uma neblina vermelha, feita de amor, que acompanhava os dois. Era o clima de romance no ar.

E enfim chegaria o momento da encruzilhada. Não apenas um fim de rua que dividia o caminho dos dois, mas a certeza de que passariam pelo menos um dia e meio sem se ver. Eternidade! Por que o cavalheiro não a acompanharia até o portão da casa? Pai bravo. Faz parte do encanto.

Se olharam nos olhos, se abraçaram, se olharam nos olhos de novo e se despediram sem se beijar. Sem se beijar? Sim, eram um pouco tímidos, e como estavam começando e se conheciam pouco... você entendeu né?

Ela se foi sem olhar para trás. Ele ficou encostado no muro olhando para ela. A cada passo que ela dava o coração dele palpitava mais e mais. A visão daqueles morenos fios encaracolados fez João perder a noção de tempo e espaço. Ficou tão desnorteado que não notou três homens com semblante baixo se aproximando, um de cada direção. Quando notou que eles estavam perto já era tarde e não havia caminho de escape. O mais baixo dos três disse em tom de ameaça:

-A carteira!

-Carteira?

-Agora!

-Hahahahaha. Você acha que isso tem importância?

Os três se olharam entre si e se colocaram em posição de combate, esperando a reação do João, que ainda não conseguira se desfazer do semblante de truão apaixonado.

-Vocês viram o que aconteceu antes de chegarem aqui?

-É maluco? A carteira!

-A mulher mais incrível que existe me abraçou. Meu coração palpita mais forte por ela, minhas mãos suam só com a lembrança daqueles pequenos olhos negros.

-Que merda! A carteira!

-Aqui está, metade do dinheiro para você, outra metade para você e o celular para você. – Entregou os valores como quem entregava doces às crianças carentes.

-Se me dão licença, vou para minha casa repousar, pois sei que estarei com ela em meus sonhos.

Disse isso e saiu devagar, com as mãos nos bolsos e assobiando músicas alegres para o alto. Andava tão leve que sequer se preocupara com a distância da caminhada, que era o triplo do habitual para chegar na casa. Não andou duas esquinas quando escutou novamente a voz do baixinho, que corria em sua direção acompanhado do pequeno bando.

- Volta aqui rapaz.

-Queres mais algo? Já disse que hoje nada mais importa, só a lembrança que surge através do cheiro doce que ainda está em mim.

-Tá, tá! Toma aí teu dinheiro e o telefone.

-Por que fazes isso jovem? Já os tinha em suas mãos.

-Conversamos e não achamos justo.

Sem os bens que rejeitaram, os três saíram pelas escuras ruas da cidade, em rumo impossível de se definir. João conta jurando para todos que viu uma pequena névoa vermelha saindo deles, mas com razão ninguém acredita. Se a história for verdadeira, todos sabemos que pelo menos naquela noite o amor triunfou sobre o ódio.

8.9.09

Pense nisso.




Pense nisso e tenha uma boa semana.