Antes de tudo eu gostaria de pedir perdão por qualquer erro gramatical ou de concordância nesse texto. Talvez isso ocorra porque estou começando a escrever exatamente a uma e vinte e oito da madrugada. Você deve concordar comigo que nesse horário o cérebro já não processa muito bem situações que exigem concentração, e depois de um dia cansativo de trabalho e um sono interrompido é possível aceitar isso sem problemas.
Pois bem, vou explicar porque estou começando a escrever agora. Tudo começou de maneira muito confusa. Eu estava andando em uma rua perto da minha casa. Lembro apenas de imagens turvas de algumas crianças brincando correndo, pega-pega eu acho, e o seu Benito, meu simpático vizinho que tocava violão na varanda da casa me dizendo algumas palavras de longe. Eram palavras confusas, sem sentido algum. Eu não lembro exatamente quais eram porque tudo escureceu. Sim, escureceu. Escureceu e surgiu, junto com o barulho específico, uma luz amarelada vindo de uma porta se abrindo. Da porta entreaberta surgiu uma silhueta feminina, uma pessoa de pouca idade com roupas jovens. Escutei uma voz melosa dizendo devagar:
-Já desligo Mauricio.
Disse isso e saiu. Não dei muita bola porque depois apareceram luzes no alto, que me chamaram a atenção. Era uma mistura de verde e azul, piscando. Contemplei aquelas luzes por um tempo, meio zonzo, sem me dar conta do que realmente acontecia. Aos poucos, tentando entender porque não via mais o seu Benito, recuperei a razão. Eu estava sonhando e minha prima, que acabara de chegar da aula, muito depois da mesma acabar, abriu a porta do meu quarto e ligou o modem para que pudesse passar mais uma madrugada na internet, no quarto dela. Obviamente ela esqueceu do nosso acordo silencioso de desligar a maioria das luzes.
Ainda um pouco tonto levantei e fui desligar os aparelhos. Como de costume, não desliguei o modem, ligado a um estabilizador, para que a amada Camila pudesse se deliciar com mais uma longa noite conectada com o mundo.
Voltei para a cama. Agora sem sono, comecei a revisar tudo o que aconteceu durante o dia. No trabalho eu estava ocupado com um projeto de calendários, muitos calendários, um para cada bairro. Os computadores da gráfica estavam ou pifados ou ocupados, então eu sugeri para o meu chefe deixar para fazer na minha casa, depois do expediente. Terminaria mais rápido. Entretanto eu teria que entregar no outro dia (na verdade hoje, porque já passou da meia noite) bem cedo para a gráfica, que não pode parar. E é por isso que eu fui dormir antes.
Tentando recuperar o sono perdido e talvez indo entender o que o seu Benito queria dizer, comecei a escutar um barulho já conhecido. TEC, TEC, TEC. Era o estabilizador acusando alguma falha na distribuição da energia. Não era a primeira vez que isso acontecia. Ocorria por causa de algo que a Camila fazia no quarto dela. Talvez um secador, prancha ou mesmo o computador. Pensei em levantar e avisar ela do barulho no meu quarto. Foi nesse momento que me aconteceu uma revelação quase divina.
Na minha cama, tentando dormir para acordar cedo no outro dia, com um barulho chato me impedindo, eu nunca havia me dado conta do óbvio. Afinal, se a Camila está na internet a noite coisa importante, de trabalho ou faculdade, com certeza não é. Se não é importante, por que eu tenho que agüentar os meus aparelhos ligados no meu quarto fazendo barulho?
Foi aí que eu me dei conta. Eu estava sendo gentil com ela. Faz pouco tempo que ela mora conosco. Veio para cá para não ter que pegar um ônibus cheio de gente que ela não gosta e viajar 160 Km todo dia para ir e voltar da faculdade. Como somos pessoas gentis, que gostamos da nossa família a os ajudamos, está morando aqui.
Eu adorei a vinda dela. Me agrada muito a idéia de ter uma irmã mais nova. Finalmente eu não sou mais o caçula da casa. Para que ela não se sentisse muito deslocada, eu estava tentando fazer com que ela não se sentisse longe de casa. Se lá em Pitanga ela viajava longe a madrugada inteira em frente à tela, aqui não podia ser diferente. Pelo menos isso até essa madrugada. O incidente da minha conversa com e seu Benito me fez abrir os olhos. Não somos nós quem devemos nos adaptar a ela, mas sim ela quem deve se adaptar a nós. Ela é a intrusa*.
Não contente em perceber o quanto estava errado em relação à minha nova maninha, estendi meu raciocínio a toda a minha vida. Percebi que é isso o que eu sou, um homem que faz tudo para que os outros se sintam a vontade, mas que não faz nada por si mesmo. Se tivesse alguém no meu quarto no momento em que eu me dei conta de tudo isso, com certeza veria uma luz iluminando minha cama. Foi um momento de revelação pessoal.
Levantei com calma, desliguei todo o meu computador sem consultar a Camila. Ela não veio reclamar, então acho que não fiz nada de mau. Aliás, mesmo se tivesse feito algo ruim não teria importância. Acabei de inventar uma regra. Daqui para frente, das 23 horas até às 7 da manhã, ou os nossos dois computadores estarão na internet ou nenhum estará. Não vou nem avisar isso para ela. Só vai ficar sabendo se ler o meu blog. Provavelmente ela não vai gostar. Provavelmente vai inventar formas de não atrapalhar meu sono. Não importa. A regra agora é sagrada e vai ser lei da casa. Perdi um ponto na minha amizade com ela, mas sou um homem mais feliz. Vou estender minha falta de boa vontade para outras partes da minha vida, principalmente no trabalho. O Mau Mau bonzinho vai ficar um pouquinho malvado de vez em quando, se acostumem.
Novamente peço perdão pelos erros gramaticais, e saiba que como é de madrugada e eu estou um pouco revoltado, pode ser que eu me arrependa de tudo o que escrevi pela manhã, por isso estou registrando aqui no Asnático. Se você notar que eu estou sendo bom demais, por favor me cobre.
*Uma intrusa super querida, que vai fazer falta quando for embora.